POEMA DE NATAL

 


Para isso fomos feitos


Para lembrar e ser lembrados


Para chorar e fazer chorar


Para enterrar os nossos mortos...


Por isso temos braços longos


para os adeuses,


uns para colher o que foi dado


dedos pra cavar a terra


Assim será a nossa vida


Uma tarde sempre a esquecer


Uma estrela a se apagar na treva


um caminho...


entre dois túmulos


Por isso precisamos velar...


falar baixo...


pisar leve.


Ver a noite dormir em silêncio


Não há muito o que dizer


Uma canção sobre um berço


Um verso, talvez, de amor.


Uma prece por quem se vai.


Mas que essa hora não esqueça


e por ela os nossos corações


se deixem graves e simples


pois para isso fomos feitos


Para a esperança do milagre


Para a participação da poesia


Para ver a face da morte


De repente nunca mais esperaremos.


Hoje a noite é jovem


Da morte apenas nascemos...


Imensamente.



Vinicius de Moraes

 

 

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